1. Origem dos Evangelhos

Jesus nada escreveu. Suas palavras, disseminadas ao longo dos caminhos, foram transmitidas de boca em boca e, posteriormente, transcritas em diferentes épocas, muito tempo depois da sua morte. Uma tradição religiosa popu-lar formou-se pouco a pouco, tradição que sofreu constan-te evolução até o século IV.

Do ano 60 a 80 apareceram as primeiras narrações escri-tas. A de Marcos é a mais antiga, depois as primeiras narrativas atribuídas a Mateus e Lucas, todas, escritos fragmentários aos quais se vão acrescentar sucessivas adições, como todas as obras populares. De 80 a 98 sur-giu o evangelho de Lucas, assim como o de Mateus, o primitivo, atualmente perdido. Finalmente, de 98 a 110, surgir, em Éfeso, o evangelho de João.

Os evangelhos de Marcos, Lucas e Mateus, chamados de sinóticos, acham-se fortemente impregnados do pensa-mento judeu-cristão dos apóstolos, mas já no Evangelho de João encontramos um reflexo da filosofia grega, reju-venescida pelas doutrinas da escola de Alexandria.

Marcos e Lucas se limitaram a transcrever o que lhes fora dito pelos discípulos. Os outros dois, Mateus e João, con-viveram com Jesus e recolheram os seus ensinos. Os seus evangelhos, porém, foram escritos de 40 a 60 anos depois da morte do Mestre.

Os manuscritos originais dos evangelhos desapareceram, sem deixar nenhum vestígio certo na História. Foram pro-vavelmente destruídos por ocasião da proscrição geral dos livros cristãos, ordenada pelo imperador Deocleciano (303 d. C.). Os escritos sagrados que escaparam à des-truição são apenas cópias.

A divisão atual dos textos evangélicos surgiu, pela primei-ra vez, na edição de 1551. Primitivamente, não tinham pontuação. Muitos fatos parecem imaginários e acrescen-tados posteriormente. Numerosas interpolações poderiam ter sido feitas igualmente.

Com o evangelho de João, a cresça cristã efetua a evolu-ção que consiste em substitur à ideia de um homem hon-rado, tornado divino, por um ser divino que se tornou ho-mem (século IV). E com o dogma da Trindade (século VII), muitas passagens do Novo Testamento foram modifica-das, a fim de que exprimissem as novas doutrinas.

 

2. Autoridade da Bíblia e as origens do Antigo Testamento

Os livros do Antigo Testamento foram escolhidos, entre muitos outros, por desconhecidos rabinos judeus. Em seu conjunto, esses livros não têm outro objetivo além da instrução religiosa e edificação moral de um povo. Nele se desconhece a exatidão bibliográfica; a preocupação do fato material e da história objetiva brilha pela ausência. Essa obra não remonta a tão antiga data como se tem de bom grado feito crer. Ela é bem a obra dos homens, o testemunho da sua fé, das suas aspirações, do seu saber, e também dos seus erros e superstições. Os profetas nela consignaram a palavra vibrante que lhes era inspirada; videntes, descreveram as imagens das realidades invisí-veis que lhes apareciam; escritores, delinearam as cenas da vida social e dos costumes da época. Foi com o intuito de dar maior peso e autoridade a ensinos tão diversos, que foram eles apresentados obra de Deus.

 

3. Relação dos primeiros cristãos com os Espíritos

Na linguagem filosófica da Grécia, a palavra demônio (daimon) era sinônimo de gênio ou de Espírito. O Cristia-nismo adotou em parte esses termos, mas modificou-lhes o sentido. Aos bons demônios deu o nome de anjos e os maus se tornaram demônios apenas.

A palavra espírito (pneuma) ficou sendo a expressão usa-da para designar uma inteligência privada de corpo carnal. São Jerônimo a traduziu como spiritus, reconhecendo, com os evangelistas, que há bons e maus espíritos. A ideia de divinizar o espírito surgiu no século II. Somente depois da Vulgata que a palavra sanctus foi constante-mente ligada à palavra spiritus, fato esse que, na maioria dos casos, tornou o sentido mais obscuro e mesmo inteligível.

As traduções francesas traduzem o Espírito Santo. Na Vulgata, está escrito Spiritum Bonum, que significa espíri-to bom. A Vulgata não fala do Espírito Santo. Convém notar, todavia, que a Bíblia, em certos casos, fala do espí-rito santo no sentido de espírito familiar, de espírito ligado a uma pessoa. A ideia de Espírito Santo, como terceira pessoa da Trindade, foi imaginado somente no final do século II.

Os cristãos dos primeiros séculos conheciam perfeita-mente as práticas necessárias para se entrar em comuni-cação com os Espíritios e não perdiam ocasião de as cultivar, inclusive para tratar de assuntos doutrinários.

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(Livro: “Cristianismo e Espiritismo” – Léon Denis)

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